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11 de novembro de 2011

Retrato




Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?



Cecília Meireles

26 de maio de 2011

Álvaro de Campos: A liberdade, sim, a liberdade!


A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança...
Sorriso da velha bondosa...
Apertar da mão do amigo [sério?]...
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
Da casa do campo da minha velha infância...
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?



Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.
 - 137.

20 de maio de 2011

Fernando Pessoa : Vive, dizes, no presente



Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
 
 
 
 
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
 

19 de maio de 2011

O que não vejo, sinto



O que não vejo, sinto


Os olhares não me impressionam,
Gestos não me intimidam,
Eles caminham, como uma multidão algoz
Deles, só enxergo as sombras distorcidas, o preconceito.
Não é normal o cheiro se suas palavras, elas fedem.
Palavras voam, sangram até a alma
Estão disfarçadas de normalidades e homogeneidade
Normal ! isso não é normal.
O que não vejo, sinto.

Silvano Sulzart

11 de maio de 2011

Nômade de uma Existência

 
Para ver o sol, ele tinha que sair,
Para não se molhar, usava guarda-chuva,
Para não se ferir, usava escudo
Para não perceber os oprimidos, desvalidos e miseráveis,
Usava óculos escuro,
Nômade, tinha um lema: sair, sem ter a certeza de voltar,
Voltar era complicado, quase que impossível.
Das impossibilidades da vida, ele registrou sete,
A sétima. Nunca volte, sempre avance.
A sexta. Jamais esqueça, perdoe.
A quinta. Amar sem ser amado, é morte!
A quarta. Nunca peça nada, absolutamente nada, a quem não tem.
A terceira. Esperar por quem não vem, envelhece-nos  precocemente.
A segunda. Para colher, precisamos plantar.
A Primeira. Livre-se de tudo, seja simples e puro.
E  se voltar, volte por outros caminhos,
Para construir novas trilhas
Superar as impossibilidades
E viver.


Silvano Sulzarty


9 de maio de 2011

Não tenho pressa. Pressa de quê?

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

Fernando Pessoa

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